Publicado por: granquixote | maio 30, 2011

NO CRAVO E NA FERRADURA

Acuado por uma oposição em histeria crescente, Barack Obama parece ter compreendido melhor do que quaisquer outros líderes mundiais o rumo dos acontecimentos nestes primeiros meses de 2011.

Grandes alterações na ordem internacional estão em curso; à emergência de novos protagonistas (notadamente China e Índia), bastante evidente na última década, acompanhada de um declínio relativo de tradicionais interlocutores (especialmente a União Européia e a Rússia), em meio ao vacilar do poder global dos Estados Unidos, veio se somar um cataclismo absolutamente inesperado, cujos desdobramentos certamente se estenderão ao longo deste século – uma onda de revoluções com perfil democratizante tomou conta do mundo árabe, inserindo no coração do Islã um novo fator estratégico (em oposição aos seus desgastados nacionalismos e fundamentalismos). Enquanto os regimes autoritários seculares de tipo nacionalista – a exemplo do Egito e da Síria – mergulham em sangrentas rupturas impostas pelo clamor das ruas, o discurso fundamentalista fraqueja até mesmo em seu bastião iraniano, onde uma disputa antes impensável entre o presidente Ahmadinejad e o aiatolá Khamenei assume contornos imprevisíveis. Os jovens muçulmanos erguem-se para recusar as ditaduras, sejam civis ou religiosas; envolvidos nas maiores mobilizações populares que suas sociedades experimentaram em mais de meio século, mantém-se nitidamente afastados da militância terrorista, cujo eixo vem deslocando-se do norte da África e do Oriente Próximo para a Ásia Central e Meridional – com centro no Paquistão. No intrincado jogo de forças do mundo islâmico, caíram por terra as antigas alianças e previsibilidades; numa zona particularmente explosiva, Fatah e Hamas estabeleceram uma coalizão improvável em nome da afirmação unilateral de um Estado Palestino (cujo reconhecimento se articula, à revelia de Israel e de suas dilações ao desacreditado processo de paz na região, para a reunião da Assembléia Geral da ONU em setembro próximo). Derrubado o regime egípcio – com o qual havia estabelecido relações estáveis – e à vista das convulsões que se desenrolam em todos os seus vizinhos, o atual governo israelense (controlado por uma coalizão de direita religiosa) deveria pôr-se de sobreaviso e assumir a melhor expressão de paisagem que pudesse; entretanto, preferiu retomar os assentamentos de colonos judaicos nos territórios ocupados da Cisjordânia, em flagrante desafio às demandas palestinas.

Nessa realidade movediça, Obama maneja o poder americano com temerário destemor, recuperando uma iniciativa político-diplomática que parecia perdida no lodaçal das guerras herdadas dos falcões republicanos; claudicando no atoleiro afegão, integrou (e liderou) a ofensiva assumida pela OTAN contra a Líbia de Kadhafi – apoiando a Líbia dos líbios em rebelião. E ofereceu ao mundo a notícia espetacular do assassinato do terrorista que cada norte-americano aprendeu nos últimos dez anos a enxergar como seu maior inimigo: Osama Bin Laden. Morto por um comando homicida das Forças Armadas dos EUA (agindo sem licença em território paquistanês) o patrono do fundamentalismo islâmico teria tido o corpo jogado ao mar – enquanto sua execução era euforicamente celebrada por milhares de nova-iorquinos em festa na Times Square. Fechando então o histórico imediato, num discurso surpreendente, tornou-se o primeiro presidente dos Estados Unidos a reconhecer a retirada de Israel dos territórios palestinos ocupados na Guerra dos Seis Dias (1967) como precondição para uma nova iniciativa de paz na região. Ao mesmo tempo em que o premier israelense Netanyahu recusa-se mais uma vez a aceitar essa premissa – sem crer que pela primeira vez sejam seus mais fiéis aliados a impor-lhe tal demanda – o poderosíssimo lobby judaico americano prepara-se para a colisão frontal com o presidente, e os grupos de opinião do mundo islâmico consideram sua proposta demasiado tíbia. Aparentemente, o líder americano obteve o pouco invejável reproche unânime dos envolvidos…

Tais movimentos não nos parecem acidentais; antes revelam o esboço de uma nova estratégia de política externa norte-americana, dimensionada em função do reconhecimento de novas circunstâncias e desafios. Em tempos de declínio dos Estados Unidos, o mundo islâmico em efervescência exige um rearranjo de forças que acompanhe uma reacomodação de interesses. Pela primeira vez desde a Revolução Iraniana (1979), apresenta-se uma possibilidade de diálogo com governos de perfil democrático no mundo árabe; a questão da estabilidade regional deixa de basear-se no torpe equilíbrio entre ditaduras nacionalistas e regimes fundamentalistas. Uma oportunidade histórica se abre para romper os impasses há muito fossilizados na região; ao mesmo tempo, as necessidades de segurança estratégica deslocam-se para outra zona de conflito, com o agravante da vulnerabilidade cada vez mais evidente do arsenal nuclear paquistanês. Executar Osama Bin Laden a apenas alguns quilômetros da capital do Paquistão, à revelia das instituições e soberanias do país, não pode ser considerado apenas um ato deselegante – constitui-se em si mesmo como um aviso aos grupos terroristas que se abrigam no país, uma lembrança de que as formalidades do direito internacional podem ser violadas também pelos militares norte-americanos. Ao mesmo tempo, apoiar os rebeldes líbios soa como desagravo à omissão dos EUA e do Ocidente perante o massacre dos opositores iranianos em junho de 2009; recupera-se perante a opinião pública global o princípio da intervenção militar legítima, enxovalhado pelos neoconservadores na invasão do Iraque. Por fim, nessa histórica ruptura com a política de alinhamento (e acobertamento) automático para com Israel, Obama impõe à direita religiosa israelense uma pesada derrota, retirando o apoio estratégico (incondicional) que lhes permitiu violar impunemente os acordos e resoluções acerca dos territórios palestinos ocupados. Oposições moderadas em Israel e no mundo árabe são assim reforçadas em suas negociações para um efetivo processo de paz, enquanto os próprios aliados do presidente comemoram seu afastamento em relação às parcialidades dos republicanos. Os Estados Unidos não trocam de lado, mas deixam de dar suporte a um aliado inconseqüente; não abandonam suas preocupações de segurança, mas ampliam possibilidades em termos de diplomacia.

Ação militar homicida, abertura ao diálogo; o martelo ainda poderoso da superpotência declinante vibra uma no cravo, outra na ferradura.

Leandro Gonsales Ciccone

29 de maio de 2011


Respostas

  1. Olá,

    Na verdade, estou aqui para sugerir um tema: o surgimento do Sudão do Sul.
    Simplesmente, estou ansiosa por um olhar mais atento da questão; a mídia tem abordado o assunto com certo descaso… e realmente sinto que há muito a ser dito.
    Aliás, se há uma coisa que sinto falta são aulas do cursinho na área de Humanas. As aulas não eram dinâmicas, havia discussões! É muito estranho estar na universidade e sentir que as questões atuais no âmbito da política simplesmente não discutidas. Bom, talvez a minha concepção de universidade não seja condizente com a atualidade.

    Bom, espero os próximos textos.


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